Sobre a Nutrição Pediátrica – Uma Homenagem ao Dia do Nutricionista

0 Comentários // em Alimentação da Criança Alimentação do Adolescente Alimentação do Bebê Eventos // 31 de agosto de 2014

Há alguns dias recebi um convite de uma amiga para escrever um texto, em homenagem ao dia do nutricionista, que retratasse a minha área de atuação: a nutrição pediátrica. Para mim, sempre é um prazer escrever, logo, aceitei prontamente o convite. Tirei uma manhã livre para a tarefa, sentei com um caderno na mão e comecei a pensar em como poderia organizar e condensar em um único texto todos os aspectos relacionados a um tema tão abrangente.

A verdade é que a nutrição por si só é riquíssima, falar sobre alimentação não tem fim. É tarefa de uma vida, ou mais. A nutrição infantil, por ser muito específica e por trazer uma série de aspectos que acompanham o desenvolvimento motor e psíquico da criança, assim como sua relação com o meio onde vivem e a família, abrange áreas que extrapolam a nutrição em si. Ser nutricionista pediátrica traz consigo a necessidade de entender o universo infantil na íntegra e relacioná-lo ao seu comportamento alimentar. Eis aí o desafio.

Após algumas horas pensando a respeito do tema e escrevendo minhas idéias, saiu o seguinte texto, que eu dedico à todas as nutricionistas pediátricas, aos professores e autores incríveis que me acompanham nessa jornada de aprofundamento nessa área tão linda, às mães e a às crianças que chegam até meu consultório e aos profissionais que acreditam no meu trabalho e sempre me indicam para os seus pacientes. O dia de hoje é de todos nós!

“Do primeiro ano de vida até a adolescência, mudanças significativas ocorrem na alimentação da criança. Na infância é tempo de constituir a competência alimentar, a autonomia sobre o desejo em relação aos alimentos, a escuta do próprio corpo e, também, é tempo de dar nomes e significados à comida. Nessa fase de transição, que vai da dependência à independência alimentar, as preferências e os hábitos de vida são formados, portanto, exige-se um cuidado maior com a quantidade e a qualidade da alimentação ofertada.

A nutrição pediátrica, por sua vez, transgride o cálculo das necessidades diárias de nutrientes para o crescimento e desenvolvimento adequados da criança, é papel do profissional atuante nessa área investigar a dinâmica familiar em volta da mesa, a procedência dos alimentos consumidos, assim como a sua representatividade para cada criança. Também é responsabilidade do nutricionista dar suporte à família no desenvolvimento da autonomia e competência alimentares na infância, para que as crianças possam confiar em seus sinais internos de fome, apetite e saciedade e tenham uma atitude confortável e positiva em relação à alimentação, conseguindo, assim, harmonizar seus desejos com as escolhas alimentares e as quantidades consumidas.

O grande desafio que a cultura alimentar atual traz é educar o paladar para sabores naturais. As crianças de hoje já nasceram sob a influência de uma cultura alimentar sintética que oferece produtos ricos em açúcares, gorduras e aditivos químicos que realçam ou criam novos sabores, muitas vezes, inéditos ao paladar. Praticamente tudo o que se consome atualmente não é mais, em sentido estrito, comida, e a forma como se está consumindo esses produtos – no carro, na frente da tevê ou do tablet e, cada vez mais, sozinhos – não é realmente comer, pelo menos no sentido em que a civilização entende o termo.

Com uma frequência cada vez maior, venho observando paladares infantis viciados em sabores intensos e artificiais, que não mais reconhecem o sabor natural dos alimentos. As frutas, os vegetais e os alimentos que vêm da natureza, e não da indústria, passaram, para grande parte das crianças, a ser considerados sem graça, sem gosto e sem representatividade.

É importante perceber que por mais estranhos e insustentáveis que às vezes possam parecer, os hábitos de consumo que nos distinguem fazem parte de nossas estruturas perceptivas e não podem ser cancelados, mas somente enriquecidos e renovados através de novas experiências. E esse é o papel intransferível do nutricionista: educar pelo gosto e não por fatos (“faz bem”, “é saudável”), uma vez que comida corresponde àquilo que é consumido com algum sentimento e que pode satisfazer as necessidades fisiológicas, os olhos, o nariz, a boca e o imaginário.”