Alimentação Infantil – Em defesa do real sabor

0 Comentários // em Alimentação da Criança Alimentação do Adolescente Eventos // 27 de setembro de 2012

“Todos os homens se nutrem, mas poucos sabem distinguir os sabores.”
Confúcio

O paladar, já há algum tempo, vem deixando de ser um norteador para as escolhas alimentares. Existe pouco espaço para a valorização do sabor em uma cultura na qual os nutrientes imperam sobre a comida e sobre todo o contexto no qual ela se insere. Essas substâncias que compõe o alimento, os nutrientes, não podem ser vistos nem saboreados, são discerníveis apenas em laboratórios científicos. Portanto, observa-se um movimento sociocultural em que o prazer proporcionado pela comida vem dando lugar ao prazer de consumir o que é dito saudável.

As crianças de hoje já nasceram sobre a influência dessa cultura alimentar reducionista e sintética imposta pela indústria alimentícia e, cada vez mais, pela mídia. Estudos comprovam que as preferências alimentares de bebês e crianças são influenciadas desde a vida intra-uterina, através do consumo materno durante a gestação. Portanto, desde o útero vêm-se entrando em contato com sabores artificiais.

Para serem aceitos pela população e conseguirem se passar por comida, os alimentos sintéticos precisam ser ricos em açúcares, gorduras, edulcorantes e aditivos químicos que realçam ou criam novos sabores, muitas vezes, inéditos ao paladar. Praticamente tudo o que se consome atualmente não é mais, em sentido estrito, comida, e a forma como se está consumindo esses produtos – no carro, na frente da tevê e, cada vez mais, sozinhos – não é realmente comer, pelo menos no sentido em que a civilização entende o termo.

Na infância é tempo de constituir a competência alimentar, a autonomia sobre o desejo em relação aos alimentos, a escuta do próprio corpo e, também, é tempo de dar nomes e significados à comida. Nessa fase ocorre a constituição do paladar e, consequentemente, as preferências alimentares são formadas. Com uma freqüência cada vez maior, vêm-se observando paladares viciados em sabores intensos e artificiais, que não mais reconhecem o sabor natural dos alimentos. As frutas, os vegetais e os alimentos que vêm da natureza e não da indústria passam a ser considerados sem graça, sem gosto e sem representatividade.

Como os receptores do olfato, os do paladar estão sujeitos à perda de sensibilidade e, se estimulados em excesso, seu limiar de sensibilidade aumenta. É preferível, portanto, evitar o consumo de alimentos aditivados quimicamente ou adoçar e salgar excessivamente a comida, para impedir que o desgaste dos receptores do paladar nos leve, como em um círculo vicioso, a adoçar e salgar cada vez mais.

Torna-se evidente, portanto, o risco de nos tornarmos consumidores guiados por sentidos cada vez menos capazes de selecionar e distinguir. Essa incapacidade se reflete no comprometimento das nossas potencialidades, inclusive da nossa habilidade de fazer escolhas diferenciadas e múltiplas. É importante perceber que por mais estranhos e insustentáveis que às vezes possam parecer, os hábitos de consumo que nos distinguem fazem parte de nossas estruturas perceptivas e não podem ser cancelados, mas somente enriquecidos e renovados através de novas experiências.

Por Naila Soares